É REGRA QUE TODO AQUELE QUE SERVE A DEUS SEJA PERSEGUIDO!

É REGRA QUE TODO AQUELE QUE SERVE A DEUS SEJA PERSEGUIDO!

Quando uma pessoa se converte e começa a mudar os próprios hábitos e comportamentos para se conformar à vontade de Deus, o mundo começa a impor-lhe a conhecida pecha de “radical”. Experimente deixar de usar determinadas roupas, parar de fazer alguns comentários maldosos, afastar-se da turminha “descolada” do colégio ou começar a usar algum adereço externo que sinalize que você é católico. Imediatamente, o mundo começará a zombar de você.  Ninguém pense que este é um sintoma exclusivo dos nossos tempos.

Na época deSanto Afonso Maria de Ligório, ele alertava para a consequência inevitável de quem se decidia a amar a Deus e desapegar-se do mundo: seria escrachado e ridicularizado publicamente. Dizia Santo Afonso: “É um santo! Vede o santo! Dá-me um pedaço de teu hábito como relíquia! Seria melhor que fosses para o deserto! Por que não entras para um convento?”. Hoje, talvez, as palavras de zombaria sejam diferentes, mas o objetivo do mundo é sempre o mesmo: perseguir as almas dos que querem levar uma vida santa e fazer com que sintam vergonha de serem justos, como sentia Santo Agostinho, antes de sua conversão: “Pudet non esse impudentem – Eu me envergonhava de ser honesto”.  Por que é assim?, alguém se pode perguntar. “Talvez digas: Não faço ninguém sofrer: procuro só a salvação de minha alma e por que então ser perseguida?”, ao que Santo Afonso responde: “Porque é regra que todo aquele que serve a Deus seja perseguido. (…) Os que levam uma vida perversa não podem ver que outros vivam santamente, porque a conduta destes é uma reprovação perene de seu perverso proceder”.  Algumas palavras das Escrituras podem ajudar a entender esse fenômeno. Primeiro, uma profecia do próprio Senhor: “Recordai-vos daquilo que eu vos disse: ‘O servo não é maior do que o seu senhor’. Se me perseguiram, perseguirão a vós também” (Jo 15, 20)

De fato, que fez Jesus àqueles que O perseguiam? Que mal praticou Nosso Senhor para que fosse tão desprezado pelos de Seu tempo, recebendo de Seus algozes bofetões, cusparadas, açoites e espinhos? Nenhum mal Ele fez, na verdade. “Ele jamais cometeu injustiça, mentira nunca esteve em sua boca” (Is 53, 9). Mesmo assim, foi incriminado, injustiçado e castigado como o pior dos criminosos. A Cruz de Cristo, além de sinal da nossa salvação, é a ilustração exata de como os bons são tratados neste mundo: como ladrões e miseráveis.  E por que é assim? Porque, como adverte São Tiago, a amizade do mundo é inimizade de Deus (cf. Tg 4, 4). Os mundanos injuriam e espreitam os santos porque estes não amam o mundo como eles. Zombam e caçoam dos justos por não serem loucos e mundanos como eles são. A sua loucura, porém, acaba com a sua morte. Diante do tribunal de Deus, de nada valem os prazeres, as honras e as riquezas com que foram cumulados os homens nesta Terra, mas tão somente as suas almas. E então? Como será o seu julgamento? Como agirão na presença d’Aquele que tanto insultaram e desprezaram em vida? Perguntarão, certamente:“Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede, forasteiro ou nu, doente ou preso, e não te servimos?” (Mt 25, 44)

E Nosso Senhor lhes responderá : Todas as vezes que zombastes dos santos, caçoastes dos justos e humilhastes os pobres, “foi a mim que o fizestes”. Todas as vezes que matastes com a vossa língua os que queriam viver a castidade, todas as vezes que ristes de quem queria ir à Missa todos os dias e até os apelidastes maliciosamente de “papa-hóstias”, todas as vezes que tentastes arrefecer a piedade de quem rezava o Terço, todas as vezes que humilhastes os vossos filhos só porque eles queriam viver a virtude… Foi a mim, Jesus Cristo, que o fizestes. Então, cumprir-se-á a palavra do Evangelho: “Aquele que me renegar diante dos homens, também eu o renegarei diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10, 33).  Por isso, que ninguém tema ser odiado pelo mundo ou tachado de “radical”. À parte a conotação negativa que ganhou essa palavra, o seu real significado está ligado à ideia de raízes: quanto mais profundas, por assim dizer, as “raízes” de uma pessoa, mais radical ela será. Antes de elevar-se acima de todas as outras espécies de sua região, o cedro do Líbano lança fundo as suas raízes e, depois, cresce majestosamente. A sua estatura chega a ser comparada pelo Autor Sagrado ao progresso do homem virtuoso: “O justo crescerá como a palmeira, como o cedro do Líbano se elevará” (Sl 91, 13). É para isso que o homem foi colocado sobre a Terra. Quando chamou os Seus discípulos, Nosso Senhor não pretendia recrutar funcionários para uma empresa ou colaboradores para uma ONG piedosa. Ele queria homens que entregassem tudo o que tinham e, por fim, a própria vida. Assim fez São Pedro, no início de sua vocação (cf. Lc 5, 11), até a sua morte, quando foi crucificado em Roma. Seguindo os seus mesmos passos, também os outros Apóstolos viveram o Evangelho na radicalidade: levaram até o martírio o seu amor a Jesus. Assim, também nós, sejamos radicais no seguimento de Cristo. Alegremo-nos nas perseguições, pois diz o Senhor: “Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 10)

Cresce a cada passo, a perseguição (por vezes velada) quando tentamos viver com alguma retidão, na conversão diária: ridicularização, zombaria; ser deixado de lado numa festa de família. Ser tachado de intolerante por falar que a religião católica é a única verdadeira, ou de inoportuno por fazer um simples convite para ir à missa… Aos poucos vou entendendo que isso é uma condição para o “povo da Cruz”, como nos rotula o Estado Islâmico. Eis uma grande angústia: tomo muito cuidado para não ferir a sensibilidade de alguém, mas me sinto na obrigação de dar a quem Nosso Senhor coloca em meu caminho , a razão da minha fé. Todos quantos recusam o infinito amor de Jesus verão o cristianismo como um elemento perturbador, pois a luz de Cristo dissipa as trevas que lhes cobrem os pecados, convidando-os a uma introspecção. A partir daí, corrigirem-se, advertindo que teriam de abrir mão de uma serie de interesses que lhes custariam certos esforços e renuncias; no entanto, não se dispõem a mudanças, preferindo manterem-se no materialismo. Já os que se submetem à influência do Espírito Santo investem-se contra as concupiscências pessoais e aceitam o convite de Jesus, enquanto os que se apegam ao pecado combatem contra a verdade e seus representantes, os desqualificam e os perseguem o quanto possam, chegando até à morte, como vemos hoje em dia em atentados contra pessoas e templos católicos. Como é difícil se manter fiel no mundo, se rejeitado e zombado tantas vezes. Mas, que alegria e que paz ao mesmo tempo!

A fé cristã tem raiz em forma de cruz. Essa verdade apresenta-se ao longo de toda a história do cristianismo, sobretudo nos dois últimos séculos, nos quais se fizeram mais mártires que todos os demais. Uma vez que o próprio Cristo certificou os discípulos acerca do ódio do mundo, nota-se a repetição, de tempos em tempos, da perseguição que acompanha a peregrinação da Igreja na Terra, como presságio da derradeira provação e páscoa do Senhor. É a aparente derrota do cristianismo dada pela cruz que, ao final, se transmuta em vitória e juízo final do amor de Deus por sua criatura. Portanto, a única alternativa coerente à perseguição não é a do falso messianismo e da apostasia, mas o abraçar da cruz cotidiana, firme na promessa de Cristo que estará com seus seguidores até o fim dos tempos. Seja qual for a categoria do martírio, todos precisam recordar que “o sangue dos mártires é semente para novos cristãos”Assim, mesmo que o rebanho se reduza a um pequeno grupo, a um resto, é neste grupo que Deus operará a graça para a proliferação do anúncio da Boa Nova pelos séculos dos séculos, “porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Cf. Mt 18, 20)

 

 

 

Hoje, talvez não nos é pedida somente a entrega física dos primeiros mártires, que tiveram suas cabeças, braços e pernas decepados por causa de Cristo. Mas, sem dúvida, é-nos também pedida a fidelidade de cada dia, pela qual todo cristão é sempre um mártir: “Sendo muitas as perseguições, também são numerosos os martírios. Todos os dias és testemunha de Cristo. Foste tentado pelo espírito de fornicação; mas, por temor do futuro juízo de Cristo, julgaste que não devias manchar a pureza da alma e do corpo: és mártir de Cristo. Foste tentado pelo espírito de avareza para assaltar a propriedade do teu inferior ou para violar os direitos da viúva indefesa; todavia, meditando nos preceitos divinos, preferiste prestar ajuda a praticar injustiças: és testemunha de Cristo. (…) Foste tentado pelo espírito de soberba; mas, ao ver o pobre e o necessitado, compadeceste-te piedosamente e preferiste a humildade à arrogância: és testemunha de Cristo” “Como são numerosos todos os dias os mártires ocultos de Cristo, os que confessam o Senhor Jesus! O Apóstolo conheceu este martírio e este fiel testemunho, ao dizer: “É esta a nossa glória e o testemunho da nossa consciência”. Com os santos, aprendemos que “quem começa a servir verdadeiramente o Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a própria vida”, como ensinava Santa Teresa de Ávila.

Foto de Beato José Sanchez Del Rio, assassinado aos 14 anos

Peçamos a intercessão dos santos, para que nos ajude a sermos testemunhas de Cristo onde for: senão no alto dos montes, nas arenas dos leões ou no madeiro das cruzes, que sejamos testemunhos em nossas casas, em nossas escolas e em nossos trabalhosMuitos dos primeiros mártires iam para as fogueiras ou para as covas dos leões cantando hinos de glória, para arrepio dos pagãos que assistiam perplexos. Isso só é possível para aqueles cuja meta está em alcançar a Coroa da Justiça nos céus. Por isso muitos que experimentaram a honra do martírio, como o Beato José Sanchez Del Rio, tiveram nos lábios as palavras “Viva Cristo Rei”. Nestes tempos obscuros de materialismo e relativismo, a Igreja tem, mais uma vez, a missão de testemunhar até o martírio as Palavras Eternas: Viva Cristo Rei!

Equipe Padre Rodrigo Maria

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